O factoring atingiu em 2025 um máximo histórico de 51,5 mil milhões de euros em Portugal. Uma subida de 12,7% face ao ano anterior, segundo a Associação Portuguesa de Leasing, Factoring e Renting (Jornal de Negócios). O confirming — o segmento em que as empresas transferem para um banco o processo de pagamento aos seus fornecedores — foi o maior bloco individual, com 23,6 mil milhões de euros. O factoring doméstico cresceu 16,3%, para 21,8 mil milhões.

A ALF descreveu os resultados como prova de que o factoring se afirmou como “pilar fundamental do financiamento às empresas portuguesas”. O presidente da direção, Luís Augusto, falou em “confiança que o tecido empresarial português deposita nas soluções dos nossos associados”.

Todos contentes.

Eu não estou. E vou explicar porquê.

O que o recorde realmente diz

O factoring funciona assim: a empresa tem uma fatura a receber daqui a 60, 90 ou 120 dias. Não tem cash para esperar. Cede a fatura a uma instituição financeira que adianta o dinheiro — menos uma comissão. A empresa resolve o problema imediato de liquidez. A instituição financeira fica com a margem.

É uma ferramenta legítima. Em certas situações, é a ferramenta certa.

O problema não é o factoring. O problema é o que o crescimento de 12,7% num único ano revela sobre a saúde real das PME portuguesas.

Quando o recurso a um instrumento de antecipação de tesouraria cresce a este ritmo, há duas leituras possíveis:

  1. As empresas estão a crescer muito e precisam de mais capital circulante para suportar esse crescimento.
  2. As empresas estão a ter dificuldades crescentes em gerir os seus ciclos de tesouraria e recorrem ao factoring como tampão.

A realidade em Portugal, para a maioria das PME, é a segunda.

O sintoma que a notícia não diz

Existe um organismo que publica dados regulares sobre prazos de pagamento entre empresas em Portugal. Os dados do Banco de Portugal e do INE mostram, de forma consistente, que Portugal está entre os países da Europa com prazos médios de pagamento mais longos — uma realidade estrutural que persiste há décadas. Não vou citar números que não estejam na fonte desta notícia, mas qualquer gestor de PME que esteja a ler isto conhece a realidade sem precisar de estatísticas: os clientes grandes pagam tarde, os pequenos têm de se financiar para aguentar.

Quando uma grande empresa transfere para um banco o processo de pagamento aos seus fornecedores — o que é exatamente o que o confirming faz, e que representa sozinho 23,6 mil milhões dos 51,5 mil milhões — quem está a beneficiar mais? O fornecedor recebe mais rápido, sim. Mas paga por isso. A grande empresa optimiza a sua tesouraria. O fornecedor paga a comissão.

A ALF enquadra o crescimento do confirming como positivo. Tecnicamente é. Mas é positivo para quem, exatamente?

O pilar que pode ser uma muleta

A frase da ALF — “pilar fundamental do financiamento às empresas portuguesas” — é simultaneamente verdadeira e preocupante.

Um pilar é uma estrutura de suporte permanente. Em construção, é bom ter pilares. Em gestão empresarial, depender de um instrumento de antecipação de créditos como pilar de financiamento operacional corrente é sinal de que o edifício tem problemas de base.

O factoring deveria ser uma ferramenta ocasional para situações específicas: crescimento acelerado, sazonalidade pronunciada, clientes institucionais com prazos fixos longos, operações de exportação com ciclos longos de recebimento. Para essas situações, é excelente. O crescimento de 12,7% no factoring afeto à atividade exportadora é, genuinamente, uma boa notícia.

Mas quando o factoring doméstico cresce 16,3% — mais do que o componente de exportação — o que estamos a ver é um número crescente de empresas a vender em Portugal, a clientes portugueses, e a precisar de antecipar as suas faturas para ter cash suficiente para operar. Isso não é sinal de prosperidade. É sinal de stress de tesouraria sistémico.

O que a tua PME deveria estar a perguntar

Antes de interpretar este recorde como argumento para aderir ao factoring, há três perguntas que qualquer gestor devia responder com honestidade:

Primeira: o recurso ao factoring é uma decisão estratégica ou uma reação de emergência?

Se o factoring está na tua equação de financiamento porque decidiste que o custo do instrumento compensa a libertação de capital para crescer, estás a usá-lo bem. Se estás a recorrer ao factoring porque sem ele não consegues pagar fornecedores ou salários no mês seguinte, o problema não é o factoring — é o ciclo operacional e possivelmente a estrutura de pricing.

Segunda: conheces o custo real de capital que estás a pagar?

A comissão do factoring é visível. O que muitas PME não calculam é o custo de oportunidade acumulado de ceder sistematicamente margens para ter liquidez imediata. Num negócio com margens apertadas — e a maioria das PME portuguesas opera com margens apertadas — o custo do factoring pode estar a transformar projetos marginalmente rentáveis em projetos que drenam o negócio devagar.

Terceira: o problema que o factoring resolve é operacional ou comercial?

Se os teus clientes pagam a 90 dias porque é a norma do sector, o factoring pode ser a solução certa. Se os teus clientes pagam a 90 dias porque não há contrato claro, não há penalizações por atraso, e nunca ninguém perguntou se podiam pagar mais rápido em troca de algo, então estás a usar o factoring para financiar uma falha comercial que podia ser resolvida de outra forma.

O renting e os EVs: a nota positiva genuína

A mesma notícia traz dados sobre renting que merecem destaque separado — e aqui a interpretação é mais direta.

O renting cresceu 9,6% em novas viaturas contratadas, com uma frota total acima de 146 mil unidades. Mais relevante: 25,6% da produção anual foi de veículos de zero emissões, com o contributo de elétricos a crescer 17,6% face ao ano anterior. Os veículos a gasóleo recuaram 18,7%, continuando uma tendência que já dura vários anos.

Isto é uma transição real, não cosmética. As empresas portuguesas estão a substituir frotas a combustível por elétricos via renting — um modelo que faz sentido precisamente porque a incerteza tecnológica e a evolução da infraestrutura de carregamento tornam o renting mais sensato do que a aquisição para a maioria das PME. Aqui, o instrumento e o objetivo estão alinhados.

O que eu faria se fosse tu

Se geres uma PME e usas factoring regularmente, não estou a dizer que deves parar. Estou a dizer que deves parar para perceber porque o usas.

Há três situações distintas:

Factoring como alavanca de crescimento: tens pipeline, tens contratos, precisas de capital circulante para honrar a procura. O custo do factoring é inferior ao custo de perder o negócio ou de deixar de crescer. Usa. Faz sentido.

Factoring como compensação de ciclo sectorial: o teu sector tem prazos longos por natureza — exportação, trabalhos públicos, grandes retalhistas. O factoring é o instrumento normal do sector. Usa, mas negoceia as condições regularmente e conhece o teu custo de capital efetivo.

Factoring como tampão de sobrevivência: recorres ao factoring para fechar o mês porque o cash não chega. Aqui, o factoring não é a solução — é o analgésico. O problema está no ciclo operacional, no pricing, nos prazos negociados com clientes, ou na estrutura de custos fixos. Resolver o sintoma sem atacar a causa vai custar-te cada vez mais.

O recorde de 51,5 mil milhões de euros diz que há muita PME portuguesa na terceira situação. E que está a pagar por isso, todos os meses, sem saber exatamente quanto.


O crescimento do factoring é um espelho. O que ele reflete, para a maioria das PME, não é força. É adaptação a uma fragilidade estrutural que merecia atenção direta.

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Fontes

  • Jornal de Negócios, “Recurso ao factoring cresce 12% em 2025. Atinge recorde de 51 mil milhões de euros”: jornaldenegocios.pt

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