Comprar uma empresa de Kaizen não te torna mais eficiente.

Pode, na verdade, fazer o oposto.

Deixa-me explicar porque é que esta notícia é mais importante para o teu negócio do que parece.

O que aconteceu

A Incentea, tecnológica sediada em Leiria com 24 milhões de euros de receita consolidada em 2025 e presença em oito mercados, comprou uma posição maioritária na Kaizen Tech, consultora do Porto especializada em metodologias de melhoria contínua e reengenharia de processos. O grupo Amorim e o Instituto Kaizen, acionistas fundadores desde 2021, mantêm participação. Paulo Martins, administrador da Incentea Capital SGPS, passa a CEO da Kaizen Tech.

O racional declarado é claro: “eficiência operacional tornou-se um fator crítico para as empresas, pressionadas por custos crescentes, escassez de recursos e maior exigência competitiva”, como a Incentea afirma em comunicado.

A operação faz sentido estratégico para a Incentea. É o terceiro movimento de crescimento inorgânico em poucos meses, depois de adquirir o braço angolano da F3M e a Dragomar em Almería.

Mas não é sobre a Incentea que quero falar.

É sobre o que qualquer empresário de PME conclui ao ler esta notícia.

O reframe que ninguém está a fazer

Quando uma empresa de tecnologia compra uma empresa de Kaizen, a narrativa imediata é: “Óptimo, agora têm eficiência operacional dentro de casa.”

Errado. Ou pelo menos, perigosamente incompleto.

A Kaizen Tech vai ao terreno das organizações para as ajudar a transformar processos. A Incentea comprou acesso a essa capacidade para a vender aos clientes. Não comprou eficiência. Comprou o produto que vende eficiência a outros.

São coisas completamente diferentes.

Esta distinção não é semântica. É o erro mais frequente que vejo em PME portuguesas quando o tema é melhoria operacional: confundir ter acesso a uma ferramenta ou metodologia com usá-la sobre si próprias.

E o setor tecnológico é, ironicamente, um dos que mais adia essa aplicação interna. O sapateiro tem os piores sapatos, e as empresas de software têm alguns dos processos mais caóticos que existem, porque estão sempre a resolver o problema do cliente antes de resolverem o seu.

O que a metodologia Kaizen realmente é (e o que não é)

A Kaizen Tech, segundo a notícia, “dedica-se à implementação de metodologias baseadas na chamada abordagem Kaizen, que parte da expressão japonesa para ‘mudança para melhor’ e se centra na obtenção de resultados concretos e mensuráveis, como o aumento de produtividade, a redução de desperdício e a melhoria da qualidade das operações.”

Sublinha: resultados concretos e mensuráveis.

Não é um workshop. Não é um PowerPoint de boas práticas. Não é uma certificação que a empresa exibe no site.

Kaizen, na sua forma genuína, é um processo de identificação de desperdício — tempo, movimento, espera, stock, defeitos — e eliminação sistemática desse desperdício com dados reais, no chão de fábrica ou no equivalente digital dele.

O que torna isto poderoso é também o que o torna difícil de comprar: funciona quando há comprometimento interno. Quando a equipa de gestão aceita olhar para os seus próprios processos com honestidade. Quando o CEO aceita que parte do desperdício vem de decisões que ele próprio tomou.

Nenhuma aquisição substitui esse comprometimento.

O que isto significa para a PME que está a ler isto

A notícia importa para ti por dois motivos distintos.

Motivo 1: O mercado ibérico vai ter mais oferta de consultoria de melhoria contínua com componente tecnológica.

A Incentea afirma que a integração da Kaizen Tech “cria condições para uma expansão sustentada, tanto no mercado ibérico como em novos mercados internacionais”. Com 24 milhões de receita e três aquisições em sequência, este grupo tem capacidade de execução.

Se a tua empresa está na indústria, na agricultura, na aviação ou nos serviços — os segmentos que a Kaizen Tech serve — vais ter mais opções de mercado para contratar este tipo de consultoria nos próximos dois ou três anos.

Motivo 2: O timing confirma que o mercado está a precificar eficiência operacional como ativo estratégico.

A Incentea não comprou a Kaizen Tech por caridade. Comprou porque vê procura crescente. E essa procura existe porque os custos operacionais estão a aumentar — energia, matérias-primas, logística, salários — e as empresas começaram a perceber que não podem continuar a crescer pelo lado da receita sem resolver o lado do desperdício.

Se o mercado está a pagar para ter acesso a esta capacidade, a pergunta que o teu CFO devia estar a fazer é: quanto é que o desperdício nos está a custar por mês?

Não é uma pergunta retórica. É um número. E se não o sabes, é porque nunca ninguém mediu.

Os dois tipos de empresário que vão reagir a esta notícia

Tipo A lê a notícia, acha interessante, guarda para “quando houver tempo” e continua com a operação como está. Talvez contrate uma consultora daqui a dois anos quando a margem já tiver erodido o suficiente para criar urgência.

Tipo B lê a notícia e pergunta-se: “O que é que eu estaria a descobrir se alguém fosse ao terreno da minha operação com esta abordagem?”

A diferença entre os dois não é recursos. É disposição para olhar.

O Tipo B não precisa de contratar a Kaizen Tech nem a Incentea amanhã. Precisa de fazer uma coisa mais simples: mapear onde é que o tempo vai parar nas suas operações nos próximos 30 dias, com honestidade e sem excepções para os processos que “sempre foram assim”.

Esse mapeamento, feito internamente, com a equipa certa, já entrega um terço do valor que qualquer consultora externa entregaria. A diferença é que custa quase zero e produz comprometimento interno que nenhuma consultora externa consegue comprar.

O que a Incentea está realmente a fazer bem

Para ser justo: o movimento estratégico da Incentea é mais inteligente do que parece à primeira leitura.

Não estão a comprar apenas uma metodologia. Estão a comprar a combinação de software de gestão (o seu core) com consultoria de processos (o novo asset). Isso é relevante porque o desperdício operacional nas empresas existe em dois planos que raramente se falam entre si: o plano dos sistemas de informação e o plano dos processos físicos e humanos.

Uma empresa que só vende software resolve o primeiro. Uma consultora de Kaizen resolve o segundo. Juntas, têm argumento para entrar numa empresa e falar com o CFO, o COO e o CIO ao mesmo tempo.

Esse argumento integrado é mais difícil de construir do que parece, e é genuinamente escasso no mercado português.

Se a integração for bem executada — e esse é sempre o “se” que destrói metade dos deals de M&A — a Incentea tem aqui uma proposta de valor que ainda nenhum player nacional conseguiu consolidar a esta escala.

A questão que fica

A Incentea vai agora ajudar outras empresas a eliminar desperdício operacional com tecnologia e dados.

A pergunta que fica — para a Incentea, e sobretudo para quem está a ler isto — é esta:

Alguém já fez esse exercício ao teu próprio negócio?

Não o plano estratégico. Não a reunião de equipa de fim de ano. Não o OKR que ficou em aberto desde janeiro.

O exercício de olhar para uma semana típica de operações e contar, com honestidade, quantas horas de trabalho humano foram consumidas em tarefas que não criam valor para nenhum cliente.

Se o número te surpreender, tens aí a tua alavanca.

Se não surpreender, ou não mediste — ou já estás à frente de noventa por cento das PME portuguesas. Numa dessas hipóteses, há trabalho a fazer.

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Fontes

  • ECO, “Tecnológica Incentea de Leiria entra no capital da Kaizen Tech” (25 Maio 2026): eco.sapo.pt

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