O número saiu ontem e fez barulho: Portugal tem 2,63 trabalhadores por cada reformado, e a tendência é de redução progressiva, podendo chegar a pouco mais de um trabalhador por pensionista num horizonte que já não parece ficção científica. Foi o que Pedro Corte Real, presidente do Instituto da Segurança Social, revelou na III Conferência Verlingue Expertise, em Lisboa, num evento dedicado precisamente aos desafios económicos e sociais da longevidade (ECO Seguros, 24 de maio de 2026).

A reação previsível — nos comentários, nos media, nas assembleias de associações — é sempre a mesma: precisamos de mais trabalhadores. Mais imigração. Mais natalidade. Mais ativos na equação.

Não está errado. Mas está incompleto de uma forma que vai custar caro a quem não perceber a diferença.

A pergunta que ninguém está a fazer

O debate sobre a sustentabilidade das pensões concentra-se quase sempre no rácio: quantos trabalhadores existem por cada reformado. É um rácio importante. Mas é uma fotografia, não um filme.

A pergunta que falta é: quanto é que cada um desses 2,63 trabalhadores está efetivamente a produzir?

Porque se tens 2,63 trabalhadores por reformado, mas cada um deles desperdiça 30 a 40 por cento do seu tempo em trabalho de baixo valor, repetitivo ou mal organizado — e essa é a estimativa típica em PME que avalio regularmente —, o que tens na prática é muito menos do que 2,63.

Tens talvez 1,6 trabalhadores a funcionar a plena capacidade. E aí o problema já é agora, não em 2040.

O que a conferência disse bem — e onde parou a meio

Os especialistas presentes em Lisboa tocaram em pontos importantes. Alexandra Cordeiro, da Verlingue Portugal, defendeu a passagem de uma cultura reativa do sinistro para uma cultura preventiva nas organizações, argumentando que isso reduz o absentismo e aumenta a produtividade. Pedro Corte Real defendeu uma abordagem integrada entre os três pilares da reforma — público, ocupacional e individual — e maior literacia financeira.

São respostas corretas. Mas são respostas a uma pergunta diferente da que eu estou a fazer.

A literacia financeira é essencial para que cada trabalhador poupe para a reforma. O terceiro pilar é essencial para não depender exclusivamente do Estado. A saúde preventiva nas empresas é essencial para reduzir baixas.

Mas nenhuma destas respostas resolve o problema de fundo das PME portuguesas: estamos a subutilizar a capacidade produtiva dos trabalhadores que já temos.

Os cinco gerações e o paradoxo que ninguém nomeia

Alexandra Andrade, da Adecco Portugal, trouxe um dado que me parece subexplorado: coexistem hoje até cinco gerações em simultâneo no mercado de trabalho português. Isso torna a gestão de talento, nas suas palavras, mais complexa e exigente.

Concordo. Mas há um paradoxo aqui que raramente é nomeado em voz alta:

Numa força de trabalho multigeracional, a transferência de conhecimento tácito — o saber que está na cabeça das pessoas e não nos sistemas — é simultaneamente mais urgente e mais difícil. Mais urgente porque os trabalhadores mais seniores vão sair do mercado. Mais difícil porque as ferramentas que as organizações têm para capturar esse conhecimento são, na maioria das PME portuguesas, inexistentes ou rudimentares.

Quando o trabalhador com vinte anos de casa sai para a reforma, o que acontece ao conhecimento operacional que estava apenas na sua cabeça?

Desaparece. E a organização perde produtividade de forma silenciosa e invisível nos balanços.

Céline Abecassis-Moedas, da Universidade Católica, propôs modelos de educação intergeracional em que as gerações mais jovens transmitem conhecimento às mais seniores — as novas dinâmicas digitais, em particular. É uma peça do puzzle. Mas a outra direção — capturar e sistematizar o que os seniores sabem antes de saírem — é tão ou mais urgente para a PME média portuguesa.

O que isto tem a ver com a tua empresa esta semana

Podes estar a ler este artigo e a pensar: “Isto é um problema macroeconómico. O que é que eu faço com isto?”

Tens razão que é macroeconómico. Mas a solução começa na microeconomia de cada empresa.

Portugal ter 2,63 trabalhadores por reformado é a consequência agregada de milhares de decisões ao nível da empresa: como se organiza o trabalho, quanta automação se usa, quanto conhecimento está documentado versus guardado em cabeças, quanto tempo se desperdiça em processos que deviam estar sistematizados.

O presidente do Instituto da Segurança Social pode defender a integração dos três pilares de reforma. Mas são as PME que definem, dia a dia, se cada hora de trabalho gera o máximo possível de valor.

E a verdade incómoda é esta: na maioria das PME que conheço, a resposta é não.

Não por falta de empenho das pessoas. Por falta de sistemas.

As duas perguntas que devias fazer hoje

Se tens uma empresa com trabalhadores, faz estas duas perguntas com honestidade:

Primeira: Se amanhã o teu colaborador mais experiente saísse — reforma, doença, outra oferta —, quanto tempo demoraria a empresa a recuperar esse conhecimento operacional? Se a resposta for “meses” ou “nunca completamente”, tens um problema de sistematização que o rácio de 2,63 vai piorar progressivamente.

Segunda: Que parte do trabalho que os teus colaboradores fazem hoje poderia ser feita por um sistema automatizado, libertando-os para trabalho de maior valor? Não estou a falar de inteligência artificial generativa como solução mágica. Estou a falar de fluxos, de eliminação de tarefas redundantes, de processos documentados que não dependem de uma pessoa específica estar presente.

A Segurança Social não vai conseguir resolver o rácio de 2,63 por decreto. Mas tu podes resolver o rácio de produtividade dentro da tua empresa por decisão.

O que Pedro Corte Real disse que merece ser sublinhado

O presidente do Instituto da Segurança Social afirmou que a solução passa por uma “abordagem integrada entre os três pilares da reforma — público, ocupacional e individual — aliada a um maior investimento em literacia financeira e em soluções privadas de poupança e proteção.”

Traduzindo para o empresário: o pilar ocupacional — os planos de poupança e benefícios que as empresas oferecem — vai ser cada vez mais relevante para atrair e reter talento numa força de trabalho que vai ser, inevitavelmente, mais escassa e mais cara.

Isto significa que a competição por trabalhadores vai aumentar. E numa economia com menos ativos disponíveis, as empresas que tiverem melhores sistemas de trabalho — que consigam fazer mais com as mesmas pessoas — vão ter uma vantagem estrutural sobre as que dependem apenas de volume.

Não é uma previsão. É aritmética.

O alerta que vale a pena guardar

Miguel Morgado, da Universidade Católica, disse no encerramento da conferência que “viver mais só representa progresso se estiver associado a qualidade de vida, proteção e antecipação do risco.”

Substitui “viver” por “ter menos trabalhadores disponíveis” e a frase fica igualmente válida para as empresas: ter menos pessoas só funciona se estiver associado a maior produtividade por pessoa, a sistemas mais robustos e a antecipação do risco de perda de conhecimento.

O rácio de 2,63 é um aviso. Não um problema de amanhã. Um problema que já começou e que se vai agravar de forma constante e previsível.

A questão não é se vai afetar a tua empresa. É se vais estar à frente do problema ou atrás.


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Fontes

  • ECO Seguros, “Portugal tem apenas 2,63 trabalhadores por cada reformado, alerta Conferência Verlingue Expertise” (24 de maio de 2026): eco.sapo.pt

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