Ganhar dinheiro de Bruxelas pode ser o pior que te acontece.
Não é provocação. É o padrão que se repete há décadas na indústria portuguesa, e esta semana voltou a ter um palco.
A Comissão Europeia anunciou que selecionou três projetos portugueses no primeiro “Leilão de Calor” europeu — um mecanismo de 400 milhões de euros criado para acelerar a descarbonização do calor industrial. Os projetos escolhidos são o GRIST-B, no setor alimentar, e os projetos EDP-TMG HEAT1 e EDP-TMG HEAT2, ligados à indústria têxtil. Todos apostam em eletrificação por aquecimento indireto por resistência elétrica para substituir sistemas a gás natural. O financiamento vem do Fundo de Inovação europeu, alimentado pelas receitas do CELE — o sistema europeu de comércio de licenças de emissão (Jornal de Negócios).
A notícia foi tratada como vitória. E é, até certo ponto.
O problema não é ganhar o leilão. O problema é o que acontece a seguir.
A falácia do projeto selecionado
Toda a gente sabe que é bom ganhar financiamento europeu. É verdade.
Mas existe uma realidade que as notas de imprensa não incluem: um projeto selecionado não é um projeto terminado. Não é sequer um projeto financiado no sentido em que a maioria das empresas entende a palavra.
Lê o que a notícia diz com cuidado.
Os projetos foram selecionados para preparação de acordo de subvenção. Os acordos de financiamento deverão ser assinados na segunda metade de 2026. Depois disso, os projetos terão dois anos para alcançar fecho financeiro e quatro anos para entrarem em operação.
Tradução: estamos a falar de um processo que, no melhor cenário, termina em operação real algures em 2030 ou 2031. Seis anos depois do problema que se quer resolver.
Nesse intervalo, a empresa tem de continuar a pagar a gás. A continuar a expor-se à volatilidade do preço do gás. A continuar a competir com empresas de outros países que já eletrificaram, com ou sem subsídio.
A seleção europeia não resolve o problema de hoje. Resolve o problema de 2030, talvez.
O que os 400 milhões revelam sem querer
O leilão europeu é, em si, um dado interessante. Não pelo valor — 400 milhões distribuídos por 65 projetos em dez países não é dinheiro suficiente para transformar a indústria de um continente. É dinheiro suficiente para demonstrar que a transformação é urgente.
Pensa no que a Comissão Europeia está a dizer implicitamente com este mecanismo:
O calor industrial continua a ser uma das áreas mais difíceis de descarbonizar, sobretudo em setores intensivos em energia como pasta e papel, químicos, vidro, siderurgia, alimentação ou têxtil.
Esta frase não é sobre o futuro. É sobre o presente. Setores como alimentação e têxtil — exatamente os dois onde estão os projetos portugueses selecionados — são hoje altamente dependentes de gás para processos produtivos. Essa dependência tem um custo que não aparece na conta de luz: aparece na margem operacional, na competitividade relativa e na vulnerabilidade a choques externos de preço.
Os 65 projetos selecionados deverão evitar mais de 6,6 milhões de toneladas de CO2 ao longo de dez anos e produzir cerca de 16,3 TWh de calor descarbonizado nos primeiros cinco anos. Ou seja, a Comissão estima que, quando estes projetos operarem em pleno, substitua mais de 1,5 mil milhões de metros cúbicos de gás natural em cinco anos — o equivalente ao consumo anual de quatro milhões de famílias europeias.
É um número impressionante. E é também a medida exata do problema que existe hoje, enquanto esses projetos não estão em operação.
O que isto tem a ver com quem não está neste leilão
Tudo.
Se a tua empresa está em alimentação, têxtil, ou em qualquer setor com processos térmicos intensivos, há duas categorias de empresas que vão existir daqui a dez anos:
As que eletrificaram. Com subsídio europeu, com financiamento próprio, com dívida, com o que fosse — mas eletrificaram. A sua estrutura de custos energéticos desacoplou-se da volatilidade do gás.
As que não eletrificaram. Que continuaram a depender de gás, a pagar as licenças de emissão que ficam progressivamente mais caras à medida que o CELE aperta, e que vão ver a sua competitividade corroída de forma silenciosa mas consistente.
A segunda ronda do leilão já está a ser preparada, desta vez com 1 000 milhões de euros — o dobro e meio desta primeira. O sinal de Bruxelas é inequívoco: isto não é um programa experimental. É infraestrutura de política industrial para a próxima década.
O erro que a maioria vai cometer
Empresas que não foram selecionadas neste leilão vão tirar uma de duas conclusões erradas:
Conclusão errada A: “Não fomos selecionados, por isso não é para nós.” Quando o que devia concluir é: “Não fomos selecionados neste leilão, mas a pressão para eletrificar não desaparece. O que fazemos enquanto aguardamos ou enquanto preparamos candidatura para a segunda ronda?”
Conclusão errada B: “Vamos esperar pelos fundos para agir.” A lógica parece razoável — para quê investir capital próprio agora quando pode haver subsídio disponível? O problema é que os acordos de financiamento só são assinados na segunda metade de 2026, há depois dois anos para fecho financeiro e quatro anos para operação. Esperar pelos fundos para começar a pensar pode custar seis anos de desvantagem competitiva.
A empresa que começa a mapear a sua dependência energética hoje — mesmo sem subsídio europeu confirmado — está seis anos à frente da que espera pelo financiamento para pensar no problema.
O que podes fazer com 45 minutos e sem leilão nenhum
Não precisas de ganhar um leilão europeu para começar a perceber onde está a tua exposição.
Há três perguntas que qualquer empresa em setores intensivos em energia devia ser capaz de responder agora:
1. Qual é a percentagem da tua estrutura de custos que está indexada ao preço do gás, direta ou indiretamente? A maioria dos gestores sabe a fatura de energia. Poucos sabem quanto da sua margem varia com o preço do gás. São coisas diferentes.
2. Que processos produtivos consomes calor de forma intensiva e poderiam ser eletrificados? Os projetos portugueses selecionados apostam em aquecimento indireto por resistência elétrica. Não é tecnologia de nicho — é tecnologia disponível. A questão é se já mapeaste onde podias aplicá-la.
3. A que ritmo o custo das licenças de emissão vai crescer na tua conta ao longo dos próximos cinco anos? O Fundo de Inovação que financia este leilão é alimentado pelas receitas do CELE. À medida que o sistema aperta, o custo de não descarbonizar sobe. Esse custo já deveria estar nos teus modelos de previsão. Está?
Se não tens resposta clara a nenhuma das três, tens um problema que nenhum leilão vai resolver por ti.
Ganhar o leilão europeu é uma boa notícia para as três empresas portuguesas selecionadas. É também um sinal claro para todas as outras que operam em setores onde o calor industrial é central: o relógio está a contar, independentemente de ires a leilão ou não.
A descarbonização do calor industrial não é uma oportunidade de captar subsídios. É uma pressão estrutural que vai remodelar a competitividade de setores inteiros ao longo da próxima década. As empresas que tratarem isto como burocracia de candidatura europeia vão descobrir, em 2030, que as que não trataram assim já têm seis anos de vantagem.
Se queres avaliar onde está a tua exposição energética e o que podes fazer antes que esse relógio acabe, marca um diagnóstico. 45 minutos. Online. Sem compromisso.
Fontes
- Jornal de Negócios, “Bruxelas escolhe três projetos portugueses em leilão europeu de 400 milhões”: jornaldenegocios.pt
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