Proibir a IA na escola é a melhor política de inovação que Portugal tem.
Leste bem. E vou defender isto até ao fim.
Não porque a proibição seja boa ideia. Mas porque, ao proibir, as escolas estão a fazer exactamente o que a maioria das empresas portuguesas faz com a inovação: delegam a decisão difícil para depois, fingem que isso é prudência, e chamam-lhe responsabilidade.
É a melhor política de inovação que temos porque é a mais fiel ao que somos. Honesta na sua desonestidade.
Ontem, nos IRGAwards 2026 da Deloitte, três organizações apresentaram projectos finalistas ao prémio Transformação e Inovação: a Caixa Geral de Depósitos, a Teixeira Duarte e a Ubbu. Em paralelo, a Deloitte moderou um debate sobre para onde vai a inovação tecnológica.
O formato era o habitual. Palco, luzes, PowerPoints com frameworks elegantes.
Mas João Magalhães, fundador e CEO da Ubbu — uma organização dedicada ao ensino de programação e literacia digital para crianças — disse uma coisa que devia ter interrompido o debate por completo:
“Na escola das minhas filhas, é proibido utilizar a inteligência artificial. Então, o que é que acontece? Os professores, porque eu conheço vários, vão para casa, preparam as aulas com IA e depois no dia a seguir vão dar aulas com aulas preparadas com IA.”
Pausa.
Os professores usam IA para preparar aulas. Os alunos não podem usar IA para aprender. A proibição não eliminou a ferramenta. Relocalizou-a. Pô-la do lado de quem já tem poder e retirou-a do lado de quem mais precisava de aprender a usá-la.
Este é o padrão. Não é específico das escolas. É o padrão português de relação com a inovação.
O que os três projectos têm em comum — e o que isso revela
A CGD reconstruiu a sua aplicação de banca para empresas de raiz. A nota na App Store passou de 1.7 para 4.7. O número de clientes com app móvel mais do que duplicou. A transaccionalidade aumentou. Tudo em cerca de nove meses de projecto.
A forma como o fizeram merece atenção: Madalena Talone, administradora da CGD, descreveu a abordagem como “olhar como folha em branco para os processos e quase que montar do zero”. Não replicar o que existia com tecnologia nova. Revisitar os processos enquanto se escolhe a tecnologia.
A Teixeira Duarte fez o mesmo na construção. Para a obra do Colombo, digitalizou as armaduras em modelos BIM e enviou os dados directamente para equipamentos automáticos que cortam o aço na medida exacta. Rita Moura, directora de Inovação, quantificou: a construção consome cerca de 30% das matérias-primas globais, e o aço tem impacto ambiental elevado. Reduzir o desperdício no corte não é só custo — é também posicionamento de sustentabilidade com efeito multiplicador em várias obras.
A Ubbu chegou a 60 mil alunos em escolas públicas, do Algarve ao norte, e tem como objectivo impactar mais 200 mil crianças nos próximos três anos, com financiamento de um consórcio que inclui o Portugal Inovação Social, a Fundação Meo, a Siemens e o Montepio.
Três organizações, três sectores completamente diferentes — banca, construção, educação. O denominador comum é desconcertante na sua simplicidade: todas partiram do processo, não da tecnologia. A IA e as ferramentas digitais chegaram depois de uma decisão sobre o que queriam mudar. Não antes.
O erro que a maioria das empresas está a cometer agora mesmo
Sérgio Lee, partner da Deloitte, foi directo no debate:
“O que temos que nos perguntar é se queremos nós disromper o nosso negócio ou queremos ver isto ser disrompido por alguém. Queremos ser uma Netflix ou queremos ser um Blockbuster? É este o ponto.”
A metáfora é conhecida. O problema é que a maioria das empresas que a ouve pensa que está do lado da Netflix. Quase nenhuma está a fazer as perguntas que a Netflix fez.
A Netflix não perguntou: “Como posso usar tecnologia para melhorar a distribuição de DVDs?”. Perguntou: “O que é que o cliente quer realmente, e o DVD é mesmo o melhor caminho para lá chegar?”
Muitas PME portuguesas estão a fazer a primeira pergunta. Compram uma ferramenta de IA. Automatizam o que já faziam. Chamam a isso transformação digital. Não é.
A CGD não perguntou como melhorar a app que tinha. Perguntou o que pesava na relação digital dos clientes com o banco e atacou os 90% da interacção diária. É uma diferença de método que parece subtil e não é.
O paradoxo da escola que é, na verdade, o paradoxo da empresa
Volto à frase de Magalhães porque ela contém a síntese de tudo:
A escola que proíbe a IA não está a proteger os alunos da ferramenta. Está a garantir que os alunos chegam ao mercado de trabalho sem saber usá-la, enquanto os adultos à sua volta já a usam. É uma transferência de desvantagem competitiva no momento de maior plasticidade cognitiva.
A empresa que adia a decisão sobre IA não está a ser prudente. Está a garantir que quando finalmente decidir, os concorrentes que decidiram antes têm uma vantagem operacional estrutural que não se apaga com um projecto de seis meses.
O problema não é a velocidade da adopção. É a natureza da decisão que está a ser adiada. Magalhães comparou-o à discussão sobre calculadoras nas escolas nos anos 80. Alguém venceu esse debate com a proibição? Alguém, hoje, acha que foi boa ideia?
O que fazer com isto, se és dono ou gestor de uma PME
Não te estou a pedir para comprar software. Estou a pedir-te que faças três perguntas antes de qualquer decisão sobre tecnologia:
Primeira: Qual é o processo que mais tempo consome na tua equipa e que menos valor diferenciado produz? Não o processo mais visível. O que mais tempo consome.
Segunda: Se recomeçasses esse processo do zero hoje — folha em branco, como disse Madalena Talone — o que eliminarias antes de automatizar?
Terceira: O que é que os teus colaboradores fazem com IA fora do trabalho, que ainda não estás a usar dentro do trabalho?
A terceira é a mais incómoda. Porque a resposta provável é: mais do que pensas.
A disrupção que a Teixeira Duarte aplicou à construção — um sector que toda a gente associa a conservadorismo operacional — partiu da pergunta sobre o desperdício, não da pergunta sobre a tecnologia disponível. A tecnologia estava lá. A pergunta sobre o desperdício é que estava em falta.
O Sérgio Lee da Deloitte admitiu no debate que “a tal revolução digital ainda não chegou a esse ponto transformacional”, mas que a IA pode ser esse momento. A frase relevante não é a segunda parte. É a primeira.
Trinta anos de transformação digital e ainda não chegámos ao ponto transformacional. Isso não é um argumento para esperar. É o argumento mais forte para parar de esperar.
A escola das filhas do Magalhães proibiu a ferramenta. Os professores usam-na na mesma, em casa, sem supervisão, sem partilha de método, sem construção de literacia colectiva.
Se isso te parece familiar no contexto da tua empresa, o problema não é a ferramenta. É a decisão que continuas a não tomar.
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Fontes
- ECO, “IRGAwards. Como pode a inovação fazer a diferença na sociedade?” (21 de Maio de 2026): eco.sapo.pt
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