A reforma laboral vai aumentar o desemprego em Portugal.
Não é um erro de digitação. E antes de passares à frente: sim, estou a falar da mesma reforma que toda a gente do lado da gestão e do patronato está a pedir. A que supostamente vai tornar Portugal mais competitivo, atrair investimento e criar emprego de qualidade.
O problema é que ninguém está a perguntar a pergunta certa. E quando se faz as perguntas erradas, as respostas certas tornam-se perigosas.
O que o debate está mesmo a dizer
Carlos Jorge Carvalho, membro do Painel Mundial de Executivos da McKinsey, publicou esta semana no Observador um artigo que merece ser lido devagar — não pelo que diz, mas pelo que implica para as PME portuguesas que ninguém está a avisar. Podes ler o artigo completo aqui: O Sofisma da Reforma Laboral.
O argumento central é preciso: rever as leis laborais do setor privado é necessário, mas é insuficiente. E a insuficiência não é de pormenor — é estrutural.
Portugal ocupa o 37.º lugar em 69 economias no IMD World Competitiveness Ranking de 2025. A produtividade do trabalho está em aproximadamente 68% da média da UE27, a quarta pior da União Europeia, com uma taxa de crescimento anual de apenas 0,4% na última década — metade da média da OCDE.
Estes números não são consequência da rigidez laboral. São consequência do tipo de economia que Portugal decidiu construir.
A causalidade que o debate ignora
Aqui está o reframe que ninguém quer ouvir: a rigidez laboral não é a causa da baixa produtividade portuguesa. É um sintoma do modelo económico que a baixa produtividade torna tolerável.
Quando uma economia se expande sustentada em turismo, construção e serviços de baixo valor acrescentado — como o artigo descreve com clareza —, cria procura de trabalho não qualificado. Esse trabalho não precisa de contratos flexíveis para funcionar. Não precisa de avaliação por mérito. Não precisa de formação contínua. Precisa de braços disponíveis e de regulação que não incomode demasiado.
O resultado é o que Carvalho descreve como “crescimento contra a competitividade”: o PIB cresce, a produtividade média comprime, e o engenheiro que podia ficar em Lisboa vai para Munique, onde o mesmo diploma, as mesmas valências, produzem o dobro do salário e entre 25% a 40% mais de produtividade medida por hora.
Não saiu por causa das leis laborais. Saiu porque o mercado que existe cá não remunera o que ele sabe fazer.
Então o que acontece se fizermos apenas a reforma laboral?
Voltemos à afirmação inicial: a reforma laboral, aplicada isoladamente, pode aumentar o desemprego.
Não é paradoxo. É matemática simples, e o artigo do Observador fornece os ingredientes para o perceber.
O artigo cita Brynjolfsson: a IA generativa tem potencial para automatizar entre 25% a 40% das tarefas cognitivas de rotina. Estudos do MIT e de Oxford identificam um risco de automação entre 40% e 60% das funções do mercado de trabalho português nos próximos 10 a 15 anos — precisamente no processamento de rotina, no atendimento ao cliente e no nível intermédio de gestão.
Agora junta os dois dados: se tornarmos mais fácil despedir, as empresas que já querem automatizar vão acelerar. E as que ainda não sabem que querem automatizar vão ter o impulso de custos trabalhistas como catalisador.
Sem uma agenda paralela de requalificação — formação contínua obrigatória, políticas ativas de emprego, reorientação do modelo para setores de maior valor acrescentado —, a flexibilização laboral não cria emprego de qualidade. Cria vazio de qualidade, que a automação preenche. O desemprego sobe. Os que ficam têm salários mais competitivos, mas são menos.
A Dinamarca percebeu isso antes de avançar. A flexissegurança dinamarquesa — implementada entre 1994 e 2000, como o artigo detalha — não foi só flexibilização. Foi um sistema completo: contratação e despedimento mais fácil, mais a segurança no desemprego mais generosa da Europa, mais políticas ativas de emprego e requalificação permanente. Os três pilares em simultâneo. Não um de cada vez, por conveniência política.
Portugal está a debater apenas o primeiro pilar.
O que isto significa para a PME portuguesa
Vou sair do plano macro — onde é mais fácil ter razão sem que isso implique nada — e entrar no plano operacional.
Se és dono ou gestor de uma PME portuguesa, o debate laboral que está a acontecer em Lisboa não é o teu problema imediato. O teu problema imediato é este: Portugal tem uma janela estreita antes de a automação chegar às funções intermédias. O artigo coloca-a entre 10 e 15 anos, mas os países e empresas que adotem IA rapidamente podem registar ganhos de produtividade de 14% a 26% em dois a três anos.
Esse diferencial vai separar as PME que sobrevivem das que ficam espremidas entre custos laborais crescentes e concorrentes que automatizaram primeiro.
O artigo cita ainda dados de Bloom e Van Reenen que deviam estar afixados em todas as salas de reuniões de Portugal: a qualidade das práticas de gestão explica sensivelmente 30% das diferenças de produtividade entre nações. E Portugal posiciona-se consistentemente abaixo da média europeia nesta dimensão. As empresas portuguesas tendem a ser familiares, de dimensão média, com menor formalização dos processos, menor monitorização de desempenho e incentivos de mérito mais fracos.
Tradução prática: o problema de produtividade da PME portuguesa não está na lei laboral. Está dentro de portas.
As duas escolhas que estão em cima da mesa
A reforma laboral vai acontecer de alguma forma, mais cedo ou mais tarde. A questão é o que fazes antes de ela acontecer — e o que continuas a não fazer enquanto o debate político consume oxigénio.
Escolha A: esperar que o debate resolva o teu problema
Continuas a operar com os processos que tens. Rezas para que a reforma não te complique a vida. Quando a automação chegar ao teu setor, reages. Tarde, caro e em modo de emergência.
Escolha B: resolver o teu problema antes que a lei te obrigue
Olhas para dentro da tua operação com a seriedade que o momento exige. Identificas onde o teu tempo — e o tempo da tua equipa — está a ser consumido por trabalho que um sistema faz por uma fração do custo. Constróis processos que tornam cada colaborador mais produtivo, independentemente do que aconteça no parlamento.
O artigo de Carvalho estima que uma agenda de reformas estruturais completa pode valer 33 mil milhões de euros de riqueza adicional por ano até 2035. Esse número não vai aparecer no teu balanço. Mas a versão micro dele — ganhos de produtividade por colaborador via sistemas e automação — pode aparecer na tua conta de resultados em meses.
A reforma laboral é necessária. Carvalho tem razão nisso. Mas é insuficiente, e a insuficiência vai prejudicar desproporcionalmente as PME que assumam que a lei resolve o que a gestão não resolveu.
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Fontes
- Carlos Jorge Carvalho, “O Sofisma da Reforma Laboral”, Observador, 17 de maio de 2026: observador.pt
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