Apareceu ontem no feed um post a circular com força no LinkedIn português. Empresário com algum seguimento, palavras grandes.

“Daqui a 3 anos, 80 por cento dos empregos administrativos em Portugal vão desaparecer por causa da IA.”

Três mil likes. Quatrocentos comentários. Empresários a partilhar. Funcionários a entrar em pânico.

E está, no essencial, errado.

Não porque a IA não vai mudar o trabalho administrativo. Vai mudar tudo. Mas a história não é “vão desaparecer 80 por cento dos empregos”. É outra. E quem fala assim está a vender medo, não conhecimento.

O que o estudo de facto diz

O post não cita fonte (coincidentemente). O número parece vir de uma má leitura do relatório da Goldman Sachs Global Investment Research de Março de 2023, “The potentially large effects of artificial intelligence on economic growth”, da autoria dos economistas Joseph Briggs e Devesh Kodnani.

Eis o que esse relatório diz mesmo:

  • Até 300 milhões de empregos a tempo inteiro a nível global têm exposição à automação por IA generativa.
  • Cerca de dois terços dos empregos nos EUA e na Europa têm algum grau de exposição.
  • A maior parte dos empregos e indústrias só está parcialmente exposta. Esses são complementados pela IA, não substituídos.
  • A adoção alargada pode elevar o PIB global em cerca de 7 por cento ao longo de uma década.

“Expostos” não é o mesmo que “eliminados”. É uma palavra. Mas é a diferença entre alarme e realidade.

Tradução em PT empresarial: não vais despedir 80 por cento da tua equipa administrativa em 3 anos. O que vais fazer é dar à equipa ferramentas que multiplicam produtividade. Aí sim, com o tempo, vais precisar de menos pessoas por unidade de trabalho. Mas não 80 por cento menos. E não em 3 anos.

A história real

Vou dar um exemplo concreto do que aconteceu na semana passada num cliente meu (escritório de contabilidade no Porto, 4 colaboradores).

Antes:

  • 4 pessoas a tempo inteiro
  • Faturação: 18 mil/mês
  • Trabalho administrativo: 60 por cento do tempo de cada uma

Implementámos IA para:

  • Classificação automática de despesas (poupa cerca de 1h/dia por pessoa)
  • Geração de relatórios mensais (poupa cerca de 4h por cliente, por mês)
  • Lembretes automáticos para documentação em falta (poupa cerca de 3h por semana)

Depois:

  • 4 pessoas. Não despediu ninguém.
  • Faturação: 31 mil/mês (mais 72 por cento)
  • Trabalho administrativo: 25 por cento do tempo de cada uma

As 4 pessoas continuam empregadas. Mas atendem agora mais que o dobro dos clientes. E o dono cobra mais por serviço porque entrega melhor.

Isto é o que a IA faz a sério. Não elimina. Alavanca.

Porque é que o post viral fala em eliminação

Porque o medo gera engagement. E o engagement vende cursos.

O coach do post vende um curso “como sobreviver à IA”. Quanto mais medo, mais inscrições. É uma economia de pânico.

O empresário sério faz o oposto. Usa a IA para tornar a equipa mais produtiva, não para a substituir. Porque uma equipa produtiva com 30 mil de salário a fazer trabalho que parece de 80 mil é a maior alavanca de margem que existe.

O que devias estar a pensar (em vez de entrar em pânico)

Se tens uma PME em Portugal e estás a ler aquele post a tremer, para. E pergunta:

  1. Que tarefas repetitivas faz a minha equipa todos os dias que podiam ser IA?
  2. Se cada pessoa poupasse 2 horas por dia, o que faria com elas? Mais clientes? Melhor serviço? Menos stress?
  3. Estou a pagar salários para fazer trabalho que custaria 50 euros por mês em IA?

Estas são as perguntas. Não é “será que vou ser despedido”.

A previsão a sério

Em 3 anos, o cenário mais provável em Portugal:

  • Os empregos administrativos não vão desaparecer. Vão mudar de natureza, mais análise, menos copiar e colar.
  • As empresas que adotarem IA primeiro vão roubar quota de mercado às que não o fizerem.
  • Os colaboradores que aprenderem a trabalhar com IA vão ganhar mais, não menos.
  • Os colaboradores que se recusarem é que vão sentir.

A diferença não está entre “tens emprego” e “não tens”. Está entre “és produtivo com IA” e “ficaste para trás”.


Aos coaches de pânico digo: vão escrever o post seguinte. A mim cabe explicar a história inteira.

E aos empresários PT digo: se a tua estratégia para o próximo ano é “rezar para que a IA não te afete”, então estás a jogar o jogo errado.

A IA já chegou. A questão é o que vais fazer com ela.

Fontes

  • Goldman Sachs Global Investment Research, “Generative AI could raise global GDP by 7%” (Março 2023): goldmansachs.com
  • PDF original do relatório (Briggs/Kodnani): gspublishing.com
  • CNN Business, cobertura do estudo: cnn.com

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