Saíram os números. Do total de empresas criadas em Portugal, 73,6 por cento sobrevivem ao primeiro ano. Aos três anos, sobrevivem 48,9 por cento. Aos cinco anos, a taxa de sobrevivência cai abaixo dos 30 por cento (fonte: INE, Demografia das Empresas 2023).
Em linguagem clara: mais de 7 em cada 10 empresas portuguesas não chegam aos cinco anos de vida. E a culpa não é dos impostos. Não é da burocracia. Não é da pandemia, da guerra, ou do que o teu primo do Algarve te disse no jantar de domingo.
A culpa é de uma coisa que ninguém em Portugal quer admitir.
A verdade que arde
A maioria dos empresários portugueses não tem operação. Tem caos organizado.
E o caos, mesmo bem organizado, não escala. Quando não escala, parte.
Quando entro num negócio que está prestes a quebrar, e nos últimos três anos já vi mais que conheço bons amigos, vejo sempre o mesmo padrão:
- Tudo está na cabeça do empresário. Processos, decisões, conhecimento sobre clientes. Tudo. Se ele cair, o negócio cai com ele.
- As ferramentas não falam entre si. O CRM tem um cliente, o Excel tem outro, o WhatsApp tem o terceiro. Ninguém sabe quem é quem.
- Os colaboradores fazem o que decoram. Não há SOPs. Cada um faz à sua maneira. Erros são lei.
- Os números chegam tarde. Faturação? Sabe ao mês. Margem? “Por aí.” Custo por lead? “Não medi.”
Isto não é negócio. É freelancing com colaboradores.
Onde a diferença aparece
Olha para o relatório do INE com calma. Sociedades têm taxa de sobrevivência muito superior à das empresas individuais, sobretudo a partir dos três anos. Setores ligados a serviços profissionais aguentam mais que a restauração. Empresas que fazem trabalho repetível aguentam mais que as que vendem horas de uma pessoa.
O que está debaixo de todas estas correlações? Método. As empresas que sobrevivem têm processo. As que partem dependem de heróis.
Antes de venderem, mapeiam o funil. Antes de comprarem ferramentas, perguntam se isto integra com o resto. Antes de contratarem alguém, escrevem o procedimento.
Aqui ainda há quem mande propostas em PDF feitas no Word, anexadas a emails que se perdem, com seguimento que se faz “quando me lembrar”. E depois espantam pelas estatísticas.
Não é cultura. É falta de método.
O que o relatório diz (e o que não diz)
O INE diz que setores como o alojamento e restauração têm taxas de sobrevivência mais baixas que a média. E que serviços profissionais (consultoria, advocacia, contabilidade) aguentam melhor.
O que o relatório não diz, mas eu vejo todos os dias, é isto: dentro do mesmo setor, as empresas que sobrevivem são as que automatizaram processos críticos cedo. Não foram as maiores. Não foram as com mais investimento. Foram as que tinham sistema.
Tenho um cliente em Braga, uma clínica dentária. Abriu em 2019. Sobreviveu à pandemia. Hoje fatura o triplo. O concorrente do outro lado da rua fechou em 2022. A diferença? O meu cliente automatizou as marcações, os lembretes e o seguimento de tratamentos em 2020. O outro continuou a depender de uma rececionista para tudo.
Mesmo setor. Mesma cidade. Mesma altura. Resultado oposto.
Não vais ser o próximo
Se estás a ler isto e o teu negócio está no ano 1, 2 ou 3, então estás na zona de perigo segundo o INE. Mas há três perguntas que tiram qualquer empresário dessa zona.
- Se eu sair amanhã do meu negócio durante 30 dias, ele continua a operar? Se a resposta é não, há um problema estrutural.
- Conheço o meu custo por cliente? (Não a faturação. O custo de adquirir um cliente, em euros.)
- Se hoje recebesse 50 leads, conseguia atender a todos com qualidade? Se não, está a queimar dinheiro de marketing.
Se respondeste “não” a duas, não és exceção. És estatística. Mas ainda há tempo de mudar.
O relatório completo está no portal do INE e os indicadores estão também na PORDATA. Vale a pena ler, mas com olhar crítico. Os números mostram o quê. Não mostram o porquê.
E o porquê, eu vejo todos os dias. É falta de método. Não é falta de talento, de mercado ou de dinheiro.
Fontes
- INE, “Empresas em Portugal: Demografia das Empresas” (2023): ine.pt (destaque)
- INE, ficheiro PDF do destaque: ine.pt (PDF)
- PORDATA, “Taxa de natalidade, mortalidade e sobrevivência das empresas”: pordata.pt
- Banco de Portugal, working paper “Criação e sobrevivência de empresas em Portugal”: bportugal.pt
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